Enfim, um debate pra valer!


Ninguém ficou quieto, todos atacaram, Bloomberg decepcionou, Warren ressuscitou, Sanders resistiu – e o que aconteceu ontem em Las Vegas não ficará em Las Vegas MIchael Bloomberg, Bernie Sanders e Elizabeth Warren durante pausa no debate entre os pré-candidatos do Partido Democrata, em 19 de fevereiro de 2020
Mike Blake/Reuters
Foi um espetáculo, o melhor e mais movimentado debate até agora. A mudança no formato permitiu maior interação entre os pré-candidatos democratas. Ninguém ficou quieto, todos se atacaram, todos atacaram o bilionário Michael Bloomberg e o favorito Bernie Sanders. A eletricidade estava no ar, a agressividade nas palavras, a tensão à flor da pele – e o que aconteceu ontem em Las Vegas dificilmente ficará em Las Vegas. Ao contrário, repercutirá em toda a campanha daqui pra frente.
Era uma noite crítica para quem ainda precisa vencer para sobreviver na disputa. Elizabeth Warren, Pete Buttigieg, Amy Klobuchar e Joe Biden tentaram, cada um a seu modo, desferir golpes contra Bloomberg – alvejado pelo histórico como prefeito nova-iorquino, pelo tratamento às mulheres em suas empresas, por não ter ainda divulgado seu imposto de renda e simplesmente por ser rico.
Nas respostas, Bloomberg foi um fiasco. Hesitou no pedido de desculpas pela política de revista arbitrária que atingia minorias em Nova York (“stop and frisk”). Enrolou-se para responder sobre casos de assédio sexual protegidos por acordos de confidencialidade. Quanto ao comportamento pessoal em relação às mulheres, saiu-se com uma frase desastrosa: “Talvez não tenham gostado de uma piada que contei”. Deu uma explicação marota para não ter divulgado ainda suas declarações de renda (“não deu tempo”).
Warren foi a mais contundente e eficaz. “Espero que vocês tenham ouvido a resposta dele: fui legal com algumas mulheres”, disse sobre Bloomberg. Chamou o programa de saúde de Buttigieg de “powerpoint de consultores” e o de Klobuchar de “nota de post-it”. Conseguiu até apresentar uma defesa razoável de suas ideias para a cobertura universal de saúde. Tirou sua campanha da letargia que sucedeu o desempenho medíocre nas prévias de Iowa e New Hampshire.
Sanders, embora na liderança das últimas pesquisas, cedeu o posto de alvo preferido a Bloomberg, conseguiu desviar dos ataques mais agressivos e saiu do debate sem perdas visíveis. Criticado por Buttigieg em razão de não ter divulgado a íntegra de seus registros médicos depois do ataque cardíaco sofrido em outubro, deu um jeito de pôr Bloomberg na resposta: “Ele também tem dois stents”.
Buttigieg e Klobuchar, animados com o resultado de Iowa New Hampshire, mas sem combustível para as próximas fases da disputa e cientes de que só um tem chances de sobreviver diante de Bloomberg, não perdiam uma oportunidade de se alfinetar. Cobrada pela atuação no Senado e por ter esquecido o nome do presidente mexicano em entrevista recente, ela respondeu: “Você está me chamando de burra? Está zombando de mim, Pete?”. Noutra resposta, foi ainda mais ferina: “Queria que todos fossem tão perfeitos quanto você, Pete”.
Biden, favorito até um mês atrás, era outro desesperado para se fazer notar, depois do desempenho vergonhoso em Iowa e New Hampshire (quarto e quinto lugar). Diante da ascensão de Sanders, ele precisa chegar em segundo lugar em Nevada e primeiro na Carolina do Sul para manter sua campanha viva até a Super-Terça, 3 de março, quando estará em jogo um terço dos delegados da convenção de julho.
Mesmo tendo se saído comparativamente bem em relação a outros debates (também aproveitou para tirar uma casquinha de Bloomberg), Biden ficou em segundo plano e, ao contrário de Warren, não soube aproveitar a oportunidade para mostrar que ainda tem vigor numa disputa que, ontem a noite, adquiriu contornos bélicos.
O que poderá acontecer daqui para frente é evidente: Donald Trump se fortalece com a briga cada vez mais intestina entre os democratas (a popularidade dele voltou a subir). Ninguém no palco parecia querer desistir. A estratégia de cada um ficou clara numa resposta perto do final, a respeito de como agiriam no caso de uma convenção disputada, em que nenhum dos pré-candidatos chega com delegados suficientes para vencer na primeira rodada de votação.
Apenas Sanders afirmou que deveria ser escolhido quem tivesse obtido o maior número de delegados, ainda que menos da metade. Todos os demais se disseram favoráveis a que a convenção seguisse suas regras – que preveem, a partir da segunda rodada, a entrada na votação de mais de 700 “super-delegados”, ligados à liderança partidária. A divergência demonstra que, embora Bloomberg tenha sido o mais atacado em Las Vegas, o nome a bater nas prévias ainda é Sanders.
Fonte: MUNDO

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