Milhares de manifestantes vão às ruas na Alemanha contra 'acordos' com a extrema direita


No estado alemão da Turíngia, a eleição de um representante liberal com apoio da extrema direita gera reação forte nas ruas da capital Erfurt; o eleito Thomas Kemmerich, mas segue no governo. Imagem de manifestação na Turíngia, estado da Alemanha, contra aliança entre o partido de Angela Merkel e uma agremiação de extrema direita
Wolfgang Rattay/Reuters
Milhares de manifestantes foram às ruas em Erfurt, capital do estado alemão da Turíngia, onde a eleição do representante da região graças à extrema direita provocou um terremoto político na Alemanha.
Os manifestantes se reuniram ao meio-dia no centro da cidade, sob o lema “Não aos pactos com os fascistas: nunca e em lugar nenhum!”. Entre cartazes e bandeiras, podia-se ler alguns que diziam “não queremos o poder a qualquer preço”.
A manifestação na cidade, localizada no território da antiga e comunista República Democrática Alemã (RDA), foi organizada por ONGs, artistas, sindicalistas e autoridades políticas, reunidos na aliança #Unteilbar (indivisível) e apoiados por movimentos como Fridays for Future e Bund.
“Manifesto-me porque a influência da AfD (força de extrema direita Alternativa para a Alemanha) torna-se muito incômoda nas regiões do leste”, explica a moradora de Erfurt Maria Reuter, 74 anos. “Continuo sendo otimista, mas limites foram ultrapassados.”
A eleição surpreendente do liberal Thomas Kemmerich no último dia 5, graças aos votos da direita conservadora e da extrema direita, gerou manifestações em todo o país. Diante da pressão, ele chegou a anunciar sua renuncia, mas, dois dias depois, disse ter sido aconselhado a permanecer por mais um tempo para garantir que o governo “continue funcionando”.
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EPA/BBC
Fim de um tabu
Diante dos protestos, o candidato do pequeno partido liberal FDP (sigla em alemão para Partido Democrático Liberal) jogou a toalha 24 horas após a sua eleição por uma estreita margem. Mas, para os organizadores da manifestação, o estrago já estava feito. “Esta eleição marca o fim de um tabu”, disse à imprensa alemã Maximilian Becker, porta-voz da aliança. “Queremos mostrar que o que acontece na Turíngia não ficará sem resposta.”
Como amostra do clima de tensão na Alemanha, sedes do FDP são alvo de ataques em todo o país há dias, segundo a revista “Spiegel”. Já a AfD, partido de extrema direita criado em 2013, pretende continuar dinamitando o jogo político alemão. Na Turíngia, as instituições estão paralisadas há mais de uma semana.
A extrema direita, acusada pela chanceler Angela Merkel de querer destruir a democracia, ameaça agora transferir seus votos, no caso de uma nova eleição na região, a Bodo Ramelow, personalidade da esquerda radical que esteve à frente da Turíngia até 2019 e rejeita qualquer contribuição de votos do outro extremo do tabuleiro político.
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Os partidos, com exceção da AfD, devem se reunir na próxima segunda-feira, em Erfurt, para buscar uma saída para a crise. Várias opções estão sobre a mesa para governar a região, que é o núcleo das incertezas envolvendo o cenário eleitoral alemão. A crise se propaga em uma Alemanha que viverá até 2021 o fim da era Angela Merkel, chanceler no poder há 14 anos.
Alguns membros do partido conservador CDU (sigla em alemão para União Democrata Cristã), principalmente nas regiões da antiga Alemanha Oriental, estão inclinados a se aliar à extrema direita, particularmente poderosa nessas regiões do país.
A retórica da AfD ressoa na antiga RDA, mais pobre. Na Turíngia, o salário médio anual era de 35.701 euros em 2018, contra a média de 42.962 euros na Alemanha, segundo o departamento de estatísticas.
Embora o desemprego nesta parte do país seja apenas um pouco superior ao índice federal (5,3%, contra 5%), a Turíngia observa um grave problema populacional: déficit de natalidade, jovens partindo para outros estados e mais de um em cada quatro habitantes (25,7%) tem mais de 65 anos, contra um em cada cinco na Alemanha.
Fonte: MUNDO

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