O primeiro teste de Sanders


Se, como sugerem as pesquisas, ele vencer as prévias de hoje em Iowa, ganhará impulso para tornar-se o adversário de Donald Trump nas eleições novembro Bernie Sanders participa de evento de campanha em Sioux City, Iowa, no dia 26 de janeiro.
John Locher/AP
O Partido Democrata americano começa a escolher esta noite em Iowa quem será o rival do republicano Donald Trump nas eleições de novembro. Embora o favorito a levar candidatura democrata ainda seja o ex-vice-presidente Joe Biden, toda a expectativa de hoje cerca o senador por Vermont Bernie Sanders, de 78 anos.
Derrotado por Hillary Clinton nas prévias partidárias de 2016, visto como um esquerdista que, há mais de 40 anos, defende o “socialismo democrático” com seu sotaque do Brooklyn, voz grave e gestual de profeta do Velho Testamento, Sanders era apenas três meses atrás dado como candidato inviável. Desde outubro, quando sofreu um ataque cardíaco, sua candidatura só tem crescido.
Em 2016, Trump assombrou as primárias republicanas. Outsider, desafiava o establishment, atacava a imigração e defendia o protecionismo. Hoje, as primárias democratas são assombradas por Sanders, outsider que nem sequer é democrata – no Senado, identifica-se como independente – e promete uma guinada à esquerda.
Suas principais bandeiras são o programa de saúde universal, o perdão às dívidas estudantis e um projeto de investimentos em tecnologia para combater as mudanças climáticas, conhecido como o Novo Acordo Verde (ou Green New Deal, nome que ecoa o New Deal de Franklin Delano Roosevelt depois da crise financeira de 1929).
Tal plano é rejeitado não apenas por banqueiros, empresários e pela elite do Partido Democrata que apoia Biden. A maioria da população americana vê com reservas o grau de intervenção estatal defendido por Sanders e ainda considera a palavra “socialismo” um palavrão. Pelas estimativas, o impacto de todos os projetos representaria um aumento de US$ 60 trilhões no gasto público nos próximos dez anos, ou 20% do PIB (dez vezes o previsto no programa de Biden).
Ainda assim, o populismo de Sanders e sua consistência ao longo dos anos – assim como o presidente Jair Bolsonaro, ele defende exatamente as mesmas ideias há 40 anos – têm funcionado para atrair o público jovem, urbano e com nível educacional intermediário ou mais alto. Mesmo que, entre os democratas, tenha recebido apoio de apenas um senador e sete deputados, Sanders se tornou o rival que Biden precisa derrotar se quiser enfrentar Trump.
Sua candidatura foi poupada de ataques e cresceu enquanto o tiroteio partidário se concentrava na senadora Elizabeth Warren ou no prefeito de South Bend, em Indiana , Pete Buttiggieg. Poucos acreditavam na viabilidade da candidatura Sanders há um ano, sobretudo pela dificuldade que ele teria diante dos “moderados” que formam o grosso do eleitorado democrata, em especial nos estados críticos do Meio Oeste, cruciais para a vitória.
Pois a alta nas pesquisas e o crescimento em Iowa revelam que, mais uma vez, posições extremas agradam o eleitor. Assim como Trump transformou o Partido Republicano numa camâra de ressonância de suas ideias nacionalistas – nada mais claro, diante de sua absolvição inevitável no processo de impeachment esta semana no Senado –, não é absurdo imaginar num futuro próximo os democratas contaminados pelo socialismo sanderista.
Para derrotar o establishment que se aglutina em torno de Biden, contudo, é crucial que Iowa vença nos primeiros estados que realizam as prévias, Iowa e New Hampshire (daqui a uma semana). Na média das últimas pesquisas, ele está ligeiramente à frente de Biden em ambos (24% a 20% em Iowa, 26% e 16% em New Hampshire, segundo o RealClearPolitics). No modelo estatístico do FiveThirtyEight, Sanders tem 40% de chance em Iowa e 56% em New Hampshire. A chance de Biden levar a candidatura ainda é maior (44%, ante 30%).
Esses números escondem, contudo, a relevância do mecanismo convoluto adotado para a escolha do candidato nos Estados Unidos. Uma vitória em Iowa seguida de outra em New Hampshire poderá dar à candidatura Sanders um impulso que a torne irresistível, como aconteceu com Jimmy Carter em 1976 ou Barack Obama em 2008. Uma derrota hoje, ao contrário, poderá transferir tal impulso a Biden, num momento em que é ele quem precisa dar sinais de força eleitoral.
Iowa não realiza uma primária com cédulas e votação secreta, mas reuniões conhecidas como “caucus”. A partir do início da noite, o habilitado a votar poderá se dirigir a algum dos 1.678 recintos no estado ou 99 remotos, para eleitores registrados em Iowa (haverá até um em Paris e outro em Tblisi, na Geórgia).
Em cada local, deverá ficar no salão – são comuns “caucus” em quadras esportivas – em torno do cartaz que identificar o candidato de sua preferência. Se alguém estiver num grupo que não atingir 15% dos votos na primeira rodada, deverá se dirigir a outro na segunda. É um momento em que estará sujeito à pressão de ativistas e militantes. Tanta gente andando pela sala resulta no curioso balé que celebrizou os “caucus”.
Os delegados à convenção estadual são escolhidos em proporção à preferência de cada candidato, respeitado o patamar mínimo de 15%. Os votos de Iowa na Convenção Nacional são então escolhidos por esses delegados. O método convoluto permite a um candidato obter proporcionalmente mais votos na primeira votação do que os delegados que lhe serão atribuídos. Por isso, a Associação Americana de Pesquisa de Opinião Pública (Aapor) lançou um alerta para que os dados das sondagens não sejam comparados ao resultado final.
Iowa indica apenas 41 dos 3.979 delegados que votarão na primeira rodada da Convenção nacional em Milwaukee, entre os dias 13 e 16 de julho. O atual quadro garante ao estado, contudo, uma influência desproporcional no destino das candidaturas Sanders e Biden. A forma como distribuirá os votos de seus delegados favorece Sanders.
O eleitorado quase 90% branco e não-hispânico o poupa de sua principal limitação: a dificuldade de penetração entre negros e latinos. O comparecimento a “caucus” costuma ser bem menor que às primárias convencionais, pois exige até duas horas na singular “dança de salão”. Em geral, o público é mais jovem, outro fator que favorece Sanders. O formato, em que os eleitores são convencidos no local, beneficia candidaturas apoiadas no engajamento ideológico e na paixão dos ativistas. Mais a cara de Sanders que de Biden.
Exportador de soja e produtor de milho para etanol, além de polo industrial, Iowa foi um dos estados mais atingidos pela guerra comercial de Trump contra China. Será um estado decisivo em novembro. A esperança de Biden está em convidar para dançar no “caucus” de hoje os idosos e os democratas mais moderados que querem se livrar de Trump. Mas quem tem se beneficiado da onda anti-Sanders em Iowa não é ele, mas a senadora Amy Klobuchar, que subiu em pesquisas recentes.
Caucus costumam ser marcados por surpresas. A quantidade de pesquisas deste ano é pequena, em comparação com eleições anteriores, para arriscar qualquer previsão. Para os democratas, está claro que o risco de escolher alguém de ideias radicais como Sanders é indicar um candidato incapaz de derrotar Trump em novembro – risco que talvez estejam dispostos a correr.
Fonte: MUNDO

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