Emergência é questão de tempo


Características do novo coronavírus e demora das autoridades chinesas impõe desafio a autoridades do mundo todo para conter a epidemia Funcionário remove lixo hospitalar de centro médico de Wuhan, centro da epidemia do novo coronavírus, na China
AP Photo/Dake Kang
Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha evitado considerar como emergência internacional a epidemia de coronavírus que surgiu na cidade de Wuhan, na China, é difícil acreditar que não faça isso nos próximos dias ou semanas.
O motivo é a principal característica que distingue a nova variante do vírus, conhecida como 2019-nCov: a capacidade de contágio. Uma análise do Imperial College, em Londres, estima em até 2,6 o número de contaminados por cada portador do vírus. Será preciso, dizem os cientistas, deter 60% dessas transmissões para conter a epidemia.
A melhor comparação para entender o desafio diante das autoridades sanitárias é o vírus da Síndrome Respiratória Aguda (Sars), que também emergiu na China em 2003. Ele era aparentemente mais contagioso que o atual 2019-nCov, mas também matava mais. Dos 8.098 infectados pela Sars em 37 países, 774 morreram – letalidade de 9,6%. Com base em números preliminares – 4.409 infectados e 107 mortos na China, segundo as últimas estimativas disponíveis –, a letalidade do 2019-nCov vem sendo estimada entre 2% e 3%. É justamente o fato de matar menos que permite à doença se espalhar mais.
A disseminação do vírus também é facilitada por dois fatores que nada têm a ver com suas características clínicas ou morfológicas. Primeiro, a demora das autoridades chinesas para agir diante da epidemia. Segundo, o maior grau de integração da China com o resto do mundo, em comparação com a epidemia de 2003.
O consenso que tem emergido entre os cientistas sugere que o 2019-nCov se espalhou a partir de um mercado de Wuhan em que animais são vendidos vivos, favorecendo a transmissão de vírus entre diferentes espécies (no caso da Sars, a explicação era semelhante). Relatos datam o primeiro caso de 12 de dezembro.
Um estudo de 41 pacientes publicado ontem na revista médica The Lancet, contudo, detectou três casos anteriores, nos dias 1 e 2 de dezembro, sem nenhuma relação aparente com o mercado de Wuhan. Mas só em 23 de janeiro, diante da pressão internacional, o governo chinês decidiu impor o isolamento a Wuhan e decretar quarentena para os infectados. Até então, limitava-se a tentar atribuir as denúncias de que encobria uma epidemia a boatos e a uma campanha de desinformação.
Com 11 milhões de habitantes, Wuhan é a sexta maior cidade chinesa e um entroncamento vital para a rede de transportes do país. Cerca de 27 milhões passaram pelo aeroporto local em 2019. Pelo menos 300 mil deixaram a cidade antes de ela ser isolada. O mercado de animais que se tornou um foco da disseminação do vírus (27 dos 41 casos relatados na Lancet foram ligados a ele) está a 500 metros de uma estação de onde partem trens-bala para todo o país.
Foi a rede de transportes que permitiu ao novo coronavírus atingir pelo menos 19 países em tão pouco tempo. Na época da Sars, só dava para ir de Wuhan a outras nações da costa asiática de avião. Hoje, uma extensa rede de ferrovias e autoestradas une a China ao resto do continente, graças à iniciativa de investimentos conhecida como Nova Rota da Seda.
Características do 2019-nCov também prometem dificultar a contenção da epidemia. Ele fica incubado entre 6 e 14 dias antes dos primeiros sintomas. Isso reduz a eficácia de medidas bem-sucedidas no combate à Sars, como as barreiras em estradas ou estações de trem para medir a temperatura e avaliar o quadro clínico dos viajantes.
Os sintomas – febre, tosse ou dor no corpo – também podem ser confundidos com uma gripe comum e levar à quarentena pacientes ainda não infectados. A transmissão é facilitada em centros de isolamento e hospitais. Na epidemia de Sars, a categoria mais atingida foram profissionais da saúde, como médicos ou enfermeiros.
Hospitais modernos, em virtude da contaminação dos equipamentos de ventilação pulmonar e do ar condicionado, são mais suscetíveis a se transformar em centros de transmissão do vírus. A jornalista Laurie Garrett, que cobriu a epidemia de Sars em 2003, relata que no mais moderno hospital de Hanói o vírus se revelou mais letal que nos menos sofisticados, onde janelas ficavam abertas.
Desde que passaram a levar o vírus a sério, as autoridades chinesas têm seguido à risca o manual que se revelou eficaz no combate à Sars: quarentena e isolamento (que já atinge 56 milhões). Faltou apenas fechar todos os mercados de animais vivos. Infelizmente, agiram tarde demais para evitar que o vírus escapasse para outros países.
No quadro que avalia o risco de contágio, elaborado por um laboratório de modelagem da Universidade Northwestern, o Brasil nem aparece entre os destinos vulneráveis. Mas é preciso que o governo se mantenha alerta para evitar a mesma leniência da China – e uma onda de mortes.
Fonte: MUNDO

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