Briga entre Rússia e Polônia sobre Holocausto se acirra antes de aniversário da libertação de Auschwitz


O 75º aniversário da libertação de Auschwitz, segundo analistas, vem sendo ofuscado por uma briga político-histórica que deixa em segundo plano o destino das vítimas do extermínio nazista. A disputa entre entre a Rússia e a Polônia sobre a interpretação “correta” da História ganha mais um capítulo nesta segunda-feira (27), quando líderes mundiais se reúnem no antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, para celebrar os 75 anos da libertação do campo de extermínio nazista, ocorrida em 27 de janeiro de 1945. Mas o presidente russo, Vladimir Putin, não está na lista de convidados.
Na quinta-feira (23), foi o presidente da Polônia, Andrzej Duda, o grande ausente do evento sobre a mesma data, realizado no Yad Vashem, em Israel, o memorial do Holocausto mais importante do mundo. O chefe de Estado polonês rejeitou o convite porque, diferentemente de Putin, não foi convidado para discursar.
“Não vejo razão para que o presidente da Rússia, o presidente da Alemanha, o presidente da França, os representantes do Reino Unido e dos Estados Unidos falem em tal lugar por ocasião deste grande aniversário e o presidente da República da Polônia não possa se expressar”, reclamou Duda, em entrevista à emissora polonesa TVP.
Foto mostra prédios atrás da entrada do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em Oswiecim, na Polônia
Markus Schreiber/AP
O chefe de Estado polonês também se referiu às recentes declarações de Vladimir Putin, culpando a Polônia como corresponsável pelo início da Segunda Guerra Mundial. Duda afirmou que os comentários do líder russo “contradizem completamente a verdade histórica” e são uma tentativa de humilhar os poloneses e “falsificar a história da Segunda Guerra Mundial”. Ele lembrou que quase seis milhões de poloneses morreram na Segunda Guerra Mundial, sendo metade deles judeus poloneses.
“Porco antissemita”
Nos últimos meses, o presidente russo tem repetidamente atacado a Polônia. Em dezembro, durante uma reunião com a cúpula militar da Rússia, Putin relativizou o tratado de não agressão soviético-alemão, chamado Pacto Molotov–Ribbentrop, em que Alemanha nazista e a União Soviética dividiram entre si a Polônia e outros países.
Putin acusou a Polônia de ter sido corresponsável pelo início da Segunda Guerra, afirmou que a atual liderança do país era antissemita, chamou de “escória” e “porco antissemita” o embaixador polonês no Terceiro Reich entre 1933 e 1939, Jósef Lipski, afirmando que o diplomata simpatizava com o regime de Hitler. Em uma reunião com veteranos da Segunda Guerra Mundial, Putin disse que a Rússia “calaria a boca de quem quiser reinterpretar a História”.
Na Polônia, os comentários de Putin ganharam as capas dos jornais e foram prato principal das reuniões de família durante as festas de fim de ano. As tiradas do chefe do Kremlin conseguiram uma coisa que há muito não era vista na conturbada paisagem política do país: colocaram oposição e governo do mesmo lado, contra um inimigo comum.
Os recentes ataques de Putin a Varsóvia começaram após o Parlamento Europeu adotar em setembro uma resolução condenando o pacto entre Hitler e Stalin. O texto afirma que, através do acordo, dois regimes totalitários dividiram entre si a Europa e outros Estados independentes segundo esferas de interesse, abrindo caminho para a Segunda Guerra Mundial.
Em 2009, o então primeiro-ministro polonês Donald Tusk e Vladimir Putin ainda concordavam que os dois países teriam que superar o difícil legado do passado e lutar para se aproximarem. Naquele ano, durante o 70º aniversário do início da Segunda Guerra, Putin afirmou que o Exército Vermelho libertou a Polônia dos nazistas mas não pôde levar a liberdade, porque ele próprio também não era livre.
Interpretação “correta” da História
De lá para cá, o cenário mudou. A maneira como a História é tratada se transformou radicalmente tanto na Rússia e como na Polônia nos últimos 10 anos, ganhando carregados matizes políticos e nacionalistas. Desde a chegada ao poder do governo de ultradireita do Partido Lei e Justiça (PiS), o governo polonês tenta impor sua interpretação “correta”, negando o papel do antissemitismo polonês durante o Terceiro Reich e a participação polonesa no Holocausto.
Um exemplo é a chamada “Lei do Holocausto”, que entrou em vigor em 2018, prevendo punição para quem afirmar que a Polônia foi corresponsável pelos crimes alemães no período do nazismo. A lei provocou críticas domésticas e no exterior, sobretudo de Israel e dos EUA.
Putin, por sua vez, promove nos últimos anos a glorificação da vitória da “grande nação russa” sobre o fascismo de Hitler há 75 anos, usando a narrativa histórica da “grande guerra patriótica” como estratégia para contrabalançar o descontentamento da população em tempos difíceis, deixando de lado passagens controversas envolvendo o regime soviético, principalmente no período em que Stalin e Hitler foram aliados.
Durante o evento no Yad Vashem, em Israel, Putin optou por um discurso contido, sem ataques a Varsóvia, o que foi comemorado como uma “vitória da diplomacia polonesa” pelo setor governista da mídia da Polônia.
O 75º aniversário da libertação de Auschwitz, segundo analistas, vem sendo ofuscado por uma briga político-histórica que deixa em segundo plano o destino das vítimas do extermínio nazista.
Fonte: MUNDO

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